Imagens Mentais em vez de Tradução

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Acabei de ler um tópico do Albert sobre a tradução do termo "in the evening sun".
Albert Rocha escreveu:
24 Jan 2020, 22:04
Norman Bates was sitting outside his office in the evening sun, reading a magazine.
Mesmo sem conseguir pensar numa tradução para o português que fosse satisfatória, foi fácil criar uma imagem mental da situação apenas com o background sobre a cultura e o contexto. Quando eu estava elaborando uma explicação o PPaulo foi mais rápido e deu uma resposta melhor do que a que eu estava elaborando.
PPAULO escreveu:
25 Jan 2020, 00:49
Correct me if I am mistaken. But looks like it´s geography (location) at play here, in America and many countries in the Northern Hemisphere the sun "slows" its setting around the equinox time (Around the March month, for instance).
Claro que o Albert perguntou porque ele precisava de uma tradução, mas em muitos casos não precisamos de tradução, queremos apenas entender a mensagem. Nesses casos a imagem que conseguimos criar em nossa mente já é mais do que o suficiente. Imaginei algo assim:
senhor-lendo-revista.jpg
Eu arriscaria a dizer que na maioria dos casos a imagem que criamos na mente funciona melhor do que a tradução.
Bons estudos, galera!
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3 respostas
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Concordo plenamente. E eu diria que o referido tópico teve duas fases, numa delas o Albert percebeu uma aparente contradição. Nessa fase não se poderia (salvo melhor juízo) construir a imagem mental, pois faltava o background contextual e cultural - como apontado, é o ponto de partida para a imagem (no sentido de imaginação).
Dito isto, concordo sim, depois de um certo "empurrãozinho" dado pelo conhecimento adquirido, a bagagem educacional e referências culturais.
Aí sim o aprendiz de uma língua passa para o plano B, fase 2, que é o ler algo e construir a imagem sem precisar de palavras.
Por exemplo, depois de saber em L1 que "o gato tem sete vidas" e que em L2 "ele tem nove vidas" ele pode partir pra a premissa de que o gato é difícil de morrer, que é um sobrevivente em condições difíceis, que é resiliente, que é quase imortal, etc. Ainda que traduza que sim, ele tem 7 vidas em L1. :-) Eu geralmente chamo isso de "translation in sense" contrastando com "literal translation" (translation in meaning).

E claro, há situações que é mais fácil (e econômico) manter a palavra que tentar reescrevê-la ou reinterpretar a idea. Tais casos como "dejavu", "schadenfreude" e outras. Uma vez fiquei às voltas com uma redação em que tentava não repetir palavras e uma delas era "ave", não conseguia de forma alguma substituir por "bípede emplumado" ficou repetida mesmo (a emenda ficaria pior do que o soneto)!

O background cultural e referências são tão importantes que há uma estória de uma mulher que sempre ao alimentar a criança, dando a mamadeira, perguntava no final "é bom?" e trazia a mamadeira com mais.
Um dia a criança aprendeu a falar papai, mamãe, e ao fim da alimentação ela desesperada dizia "é bom! é bom! é bom" (querendo dizer - erradamente - eu quero mais! Eu quero mais!). Isto é, a "bagagem de experiências" da criança ainda não era equivalente ao do público em geral que fala português.

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...background sobre a cultura e o contexto Alessandro
...ler algo e construir a imagem sem precisar de palavras - PPAULO
Importantes colocações!

Aproveitando esse tema, venho apresentar uma opinião que geralmente causa inúmeras contestações sempre que a exponho:

A tentativa de traduzir, que é um ponto sempre trazido aqui para o fórum por mim (acredito que tenho uns 200 tópicos só sobre traduções), é também, na minha opinião, um segmento do aprendizado de um idioma que não deve ser ignorado.

Entendo perfeitamente que compreender o que foi falado/escrito é o mais importante, mas considero também fascinante a habilidade desenvolvida por tradutores de livros/filmes/desenhos/documentários e por intérpretes em tempo real de conseguir transferir para um outro idioma a mensagem pretendida, em linguagem acessível e em total harmonia com toda a contextualização da situação.

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Não haverá contextação de minha parte, porque faz sentido.

Primeiro devo fazer um aparte no tópico para deixar claro que (penso) o ponto que eu e Alessandro estávamos salientando era o "da tradução mental", no sentido de que às vezes as pessoas leem algo em inglês e ficam procurando a palavra equivalente em português.

São essas traduções literais, que costumam acontecer no início da aprendizagem, e que podem levar à situações engraçadas (ou até embaraçosas) como a do garoto que foi para os Estados Unidos no intercâmbio e a família que o recebeu foi muito gentil. Num dado momento, ele querendo elogiar, falou para a "mãe americana" [guestt mother] - I am very happy here, you are such a hot mom! Quando seria "you are such a warm person" (calorosa, hospitaleira, etc) ou algo assim.
Quando se tem certa "bagagem cognitiva" e cultural se pode "pular" certas etapas, e deixar fluir. Liberando espaço (freeing up space) para se pensar numa outra forma de expressar algo.
Tipo, quando se está lendo um "novel" (livro de história - fiçção) em inglês não se pensa em português, na maior parte do tempo.
Fazendo uma comparação com o português, às vezes se diz por aí em certas regiões "um pé de caju" (uma boa saída se não lembrar da palavra "cajueiro"). É uma comparação um tanto pobre, mas terá outras árvores mais difíceis de lembrar o nome...

Mas já que tocou no assunto tradução, sim, é uma ciência e mais ainda uma arte, um verdadeiro dom. Citam por aí que Umberto Eco teria comentado que ele teria mais leitores de obras traduzidas ou revisadas por ele do que as próprias obras do autor!
Há o caso de um leitor teria lido um livro de origem alemã (traduzido) e o livro é tão conhecido nos países de língua inglesa que o mesmo pensou que a obra fosse de origem americana! Depois, leu em alemão o original, e achou sem os mesmos atrativos, sem o mesmo charme...
Matthias Göritz, professor um professor de prática de literatura comparada
Já disse (apropriadamente) :
“The translator is the best reader of the author’s work, or tries to become the best reader of the author’s work, and then he or she also becomes the best rewriter of the author's work, ” -
"O tradutor é o melhor leitor dos trabalhos de um autor, or tenta se tornar o melhor leitor da obra de um autor, e então ele ou ela também se torna o melhor reescritor da literatura de um autor."
Sim, porque ele lê com a responsabilidade de fazer o leitor "enxergar", entender e acompanhar o que texto diz, ler o trabalho original "sem ele próprio" aparecer... (ou pelo menos parecer que não está ali).
Por isso que quando lemos um livro e pensamos que "conhecemos" o autor e sabemos o ponto de vista dele, nem pensamos que um tradutor "esteve ali". Se pensarmos que o autor "pôde" se expressar em português, o trabalho do tradutor foi bem feito.
It´s no small feat!